terça-feira, 19 de outubro de 2010

Feliz Recomeço de Policarpo Quaresma.

Faltava pouco para a sirene tocar. O suor escorria por sua testa. Cada segundo que passava era mais que uma eternidade.
E ainda dizem que o tempo não é relativo. Oras bolas! Para ele, o tempo era tudo, menos absoluto!
            E pensar que ele tinha um futuro tão promissor, curso técnico, fazendo faculdade, que claro, depois de entrar ali, teve que trancar. O momento poderia ser agora.
            Passaram-se treze anos desde então, e ele entrou e acomodou-se. Todo aquele potencial ficou intrínseco e introvertido, visto as ameaças dos companheiros e subordinação de seus superiores, invejosos com seu talento, impiedosos com sua calma e honestidade. Ele não deveria suportar tudo aquilo, não foi para isso que ele veio ao mundo, mas precisava estar ali, então se calava.
            Dentro de algumas frações do tempo ele sairia, para nunca mais voltar. Já era fato, e sem jeito algum de voltar atrás.
            Mas depois de todo esse tempo, será que o mercado ainda estaria aquecido? Será que, mesmo com todas as qualificações e carta de recomendações de seus superiores, que vieram juntas com milhões de desculpas dos mesmos, ele conseguiria algo melhor do que sua vida atual?
            E ele estava ali, conversando com o porteiro do local, aguardando a bendita sirene tocar. Seria o horário de saída.
O sinal toca, hora de partir!
            O porteiro dá-lhe um abraço dizendo “É meu amigo, isso aqui nunca foi seu lugar! Vá com Deus!”.
            O sentimento de liberdade lhe causava fobia, como uma droga entrando pelos canais sanguíneos. Mas ele finalmente saiu.
            “Treze anos, treze anos!” – ele repetia como se este tempo que passou fosse uma página virada, que até deixarão lembranças. O aprendizado foi dado, muita coisa entendida, muita coisa para ser esquecida.
            No começo não acreditavam no grande potencial dele, nem ele mesmo acreditava, e o tempo passou. Treze anos depois, quando ele deu o primeiro passo fora dali, que tudo ficou claro: ele se sentia renovado, e o passado, logo atrás dele, com certeza, sentirá saudades. Mas ele não quer sentir saudades, ele quer esquecer este corrosivo passado.
De fato, ele quer lembrar onde estava há treze anos atrás, para recomeçar, do zero, os anos que passou ali.
            A justiça tarda mas não falha e o verdadeiro assassino, ao morrer treze anos depois, confessou o crime aos risos, e ele, totalmente inocente, passou treze anos encarcerado, aprendendo a lição, que ele nunca precisaria, de um outro qualquer.

Um comentário:

Andarilho disse...

Meu caro... nem tenho o que expressar. Soberbo é a palavra que eu usaria, e uma que não uso com frequência.

Realmente, divino. ;)