sábado, 27 de fevereiro de 2010

A Biocomplexografia de Donatto Leão - Parte 7

Capítulo 7 – E a vida continua!

. Já passava do horário do jantar, meus avós assistiam a novela das oito. O legal é que meu avô Paulo sempre dizia que não gostava nem um pouco de novela, e que a antecessora sempre seria a última... Pois bem, lá estavam os dois assistindo aos capítulos emocionantes da trama.
. Quando a novela das oito começa, como sabemos, já passou das nove. E eu estava apreensivo. Como um idiota apreensivo.
. Por que eu era um idiota e não ouvia o meu primo?
. - Don, dizia ele, não vai se apegar na primeira que você beijar, o mundo não vai acabar amanhã... Somente em 2012, segundo os Maias!
. E advinha? Fiquei a tarde toda esperando a Fabíola ligar.
. Ah, sim, ela ligou. Como eu era idiota, e momentos idiotas nós guardamos em nossa memória, igualzinho a musica ruim, eu me lembro do horário que ela ligou: 21h33min. E eu custei a atender. Na verdade, quem abriu o flip do celular e o colocou em meu ouvido foi o Paco, dizendo:
. - Larga de ser bocó, caramba! – depois cochichou – marca algo, mas olha, SEM COMPROMISSO!
. “Oi Fabí, tudo bom?”
. “Sim, estou bem, e você?”
. “Melhor agora, hehehe”
. - Caraca, essa foi péssima! – cochichou o Paco que estava do meu lado.
. “Então, Don, o pai da Paula faleceu, e como eu achei que a gente podia sair hoje que é sábado ainda... bem, difícil né? Vou lá ao velório.”
. “Nossa Fabi, que chato isso né? Ela deve estar mal!”
. “É sim, era muito ligada ao pai, mas eu vou dar uma passadinha no velório e acompanhar o enterro depois.”
. “Ah, que horas vai ser?”
. - Diga a ela que vamos sim! Já vou ligar para a Rafa! – Disse Paco, besta, achando que ela estava marcando algo pra gente fazer.
. “Já estão velando o corpo, no Velório do Ibirapuera”
. “Ah, então, o Paco e eu vamos com vocês. As meninas vão todas?”
. “Que lindo de vocês, nos conheceram ontem, e já estão assim, tão solidários!”
. “Nos vemos lá, beijo!”
. “Tchau Don! Beijo, lindo!”
. - Aonde vamos, qual a balada, Don? – disse Paco, quase se arrumando já pra sair.
. - Programão: vamos a um velório.
. - Ãh?
. Paco fez pressão na hora errada, eu cedi às suas pressões na hora errada, e enfim fomos a um encontro romanticíssimo em um velório, de um cara que nós nunca conhecemos, de uma família que sequer sabemos o sobrenome, e o pior, do outro lado da cidade!

***

. Chegamos lá no velório, e vou ser sincero, fiquei surpreso: a família da Paula não era rica, era bilionária! Tinham tantos carros importados naquele lugar que eu acreditei estar em uma premiação do Oscar.
. Dentro, no salão onde se velava o corpo, várias pessoas da alta sociedade de São Paulo, inclusive o prefeito da cidade e alguns vereadores que eu me lembrava do rosto por causa daquelas campanhas políticas ridículas que passavam na televisão.
. Quando olhamos para o lado, estavam as três amigas sentadas, e a Paula estava próximo ao caixão. Fomos ver então as meninas.
. O Paco já chegou beijando a Rafaela, claro um beijinho respeitoso pela ocasião, e eu, idiota, com aquele frio intenso na barriga, não sabia se beijava ou não.
. Rolou um selinho, breve, mas devido também à ocasião, ficou despercebida a minha idiotice e timidez.
. - Que bom que vieram – disse a Alessandra – muito legal da parte de vocês.
. - Não importa quanto conhecemos as pessoas, e sim qual intensidade gostamos delas – disse Paco, e vou dizer a verdade, olhei para ele com a cara mais estranha a possível por ter ouvido isso e pensei: “Falso como nota de 30 reais”.
. - Vamos lá falar com a Paula, Paco? – saí do canto da sala e puxei o Paco, senão acho que ele não iria lá.
. Chegando próximo da Paula, dei um abraço nela e fiz a única pergunta que qualquer idiota faria, quando um ente querido de alguém morre e esse alguém está chorando demais:
. - Oi Paula, tudo bem?
. Por que fui falar isso? Meu Deus, tanta coisa pra falar, tipo um simples “Meus pêsames”, mas não, o pai da menina parecendo um presunto no caixão e eu pergunto se ela está bem. Ela me abraçou e desbaratinou de chorar:
. - Por que ele, Don? Por quê?
. - Não, calma, Paula, ele está num lugar melhor que esse. Se conforte! Ele foi um grande homem! – tive que confortar a menina, mesmo desconhecendo o pai dela e mal sabendo que o cara foi um dos mais calhordas advogados que já existiu, e todos aqueles políticos que estavam ali, deviam as cuecas para o cara, pois livrou-os dos mais escandalosos escândalos. Mas tudo bem, era um grande homem. Grande, e rico!
. - Quando tudo isso acabar, a gente dá uma volta para você arejar a cabeça, tá? – disse Paco com um jeito carinhoso que eu fiquei surpreso.
. - Tá bom, disse Paula soluçando, marquem com as meninas, preciso me distrair mesmo.
Deixamos ela com os parentes e fomos falar com as meninas.
. - Meninos, disse a Rafa, vamos sair um pouco, comer alguma coisa, o enterro é só amanhã cedo mesmo, não adianta ficarmos aqui. Ainda nem é meia-noite.
. - Ok, concordamos juntos.
. - Eu vou para a minha casa, estou sem clima hoje, disse a Alê, mas saiam de casais, eu iria sobrar mesmo!
. - Tudo bem, quer carona? – disse eu com minha costumeira gentileza e, é óbvio, não querendo dar carona, porque quanto mais cedo estivéssemos os quatro apenas, mais cedo agarraria a Fabí.
. - Valeu, Donatto, estou de carro hoje! Bom divertimento!
. - Tchau! – todos saímos do velório e fomos a um barzinho, ali perto, que a Rafa indicou. O lugar era bem legal, mesmo que tocasse samba, e mesmo que eu não gostasse de samba. Mas o lugar era muito bom.
. Passamos uma noite agradável, mas claro, umas 3 e meia da madrugada, já era hora de ir embora, afinal as meninas encarariam um enterro “super animado” no outro dia. Já me sentia bem com a Fabíola, e claro, isso preocupava meu primo, que não queria de jeito nenhum perder a minha companhia, mesmo ele tendo a dele.
. As meninas foram ao banheiro, antes de irmos embora, lógico que, como toda mulher, já era a oitava vez que iam ao banheiro, juntas, a ponto de desconfiarmos de alguma diarréia em vista! Paco aproveitou a deixa e falou:
. - Don, sei que a Fabi é gatinha, simpática e tudo o mais, mas não se apega! Você tem mais uns 20 dias de férias não é?
. - Sim, tenho, mas ela é legal! Estou curtindo...
. - Segunda noite, cara, segunda noite com ela! Para com isso, Donatto!
. - Mas não vou arrumar outra, e peguei bem com ela!
. - Você consegue outra, e continua com ela! E continuamos a sair!
. Percebi no rosto dele um ar de preocupação, talvez estivesse com medo realmente de perder o companheiro de balada.
. Fomos embora. Quando fui me dirigindo ao quarto onde estava dormindo, pensei que era muito estranho o Paco estar saindo comigo, até porque sempre achei que ele tivesse um arsenal de amigos ao redor do mundo.
. No outro dia, acordei mais cedo, tinha que ir em casa pegar mais roupa para ficar na casa da minha avó... Eles quase imploraram de joelhos para que eu passasse as férias todas lá, o que pra mim era ótimo também, não iria dar certo, por maior que fosse o meu esforço, cozinhar sozinho em casa. Afinal, ninguém aguenta miojo empapado com salsicha todo dia! Minha incapacidade na cozinha chegava ao ponto de queimar lasanha para microondas pré assada, ou até mesmo ser incapaz de usar um abridor de latas!

. Sentei à mesa do café, o Paco ainda dormia. Minha avó sentou e começou a conversar comigo.
. - Donatto, o que está achando de seu primo?
. - Vó, eu ia te perguntar mesmo. Ele está tão estranho, tão...
. - Legal? – interrompeu minha avó, como se estivesse descoberto o que eu iria dizer.
. - É, vó, está diferente, e os amigos dele?
. - Que amigos? Ele sempre foi sozinho, quando saía assim, como vocês estão fazendo, ele sempre ia sozinho e se arranjava por lá.
. - Que triste... Mas vó, eu lembro que ele tinha uns amigos, quando eu vinha aqui.
. - Não tinha amigos, querido, eram alguns baladeiros que ele encontrava na noite. O Paco sofreu muito nessa vida, não conseguiu se firmar em nenhuma escola, então não fez nenhuma amizade. Aqui na rua, nossa vizinhança sempre foi muito velha e desconfiada, então ele não tinha amigos nem na rua.
. - Tinha outra impressão dele, vó, sempre o senti forte, convicto, cheio de si e principalmente independente.
. - Vou te contar então, Donatto, tudo sobre o Paco, aquelas histórias que quando você é pequeno não sabia ou não podia saber, agora você pode.

2 comentários:

Amèlie disse...

Que ótima volta!!!

Queremos mais!!!
Bjos

Andarilho disse...

Ou minha memória está muito boa ou os textos foram realmente bons a ponto de eu me situar completamente na história apenas com o primeiro parágrafo, após tantos meses.

Benvindo de volta, meu caro.